Author Topic: Método Analitico x Método Sintético  (Read 44904 times)

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Andre Abath

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Método Analitico x Método Sintético
« on: May 28, 2000, 04:09:21 am »
 Em uma de suas corresondências, Descartes apresenta uma prova da existência de Deus sob a forma de axiomas, postulados, etc. Após, afirma ser este um método sintético, típico da geometria. Em contrapartida, ao mencionar as Meditações, considera o método lá utilizado como sendo analítico, onde as provas não são apresentadas de pronto. Kant, nos Prolegômenos, menciona a mesma distinção. Esta obra utilizaria o método analítico, já a Crítica da Razão Pura, o sintético. Apesar dos termos idênticos, os método utilizado não é nem ao menos parecido com o cartesiano. Alguém conhece a posição kantiana sobre este ponto?

Onofre Veiga

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Método Analítico x Método Sintético
« Reply #1 on: May 28, 2000, 04:38:26 am »
André: Confesso que nunca havia estudado esta questão. Mas consultei o dicionário Descartes de John Cottinghan e ele faz uma explanação a respeito, que reproduzo abaixo. Quanto à visão kantiana sobre esta distinção, seria bom se você citasse a página ou capítulo do prolegómenos em que ela aparece , para que possamos comparar melhor. De pronto, posso dizer que é normal cada conceito assumir uma diferente forma em cada autor, ainda mais sento o conceito de "sintético" e de "analítico" chaves do pensamento kantiano.
Vou detalhar melhor esta distinção em Descartes que você mencionou, para depois de ver como ela é em Kant, pensarmos se ele a tinha a distinção cartesiana em mente quando a citou nos prolegômenos.
Cottinghan em seu verbete começa distinguindo o método de análise - usado em contextos específicos e diversos- do famoso método cartesiano. Este rótulo aparece por exemplo nas Sextas Repostas, AT VII 413:CMS II 278. Já nas "Regras para a direção do espírito", Descartes menciona determinado tipo de análise dos geômetras, usado para a solução de todos os problemas, mas que não foi transposto para a posterioridade. Porém o método de análise em Descartes não é o mesmo dos geômetras. É nas Segundas Respostas que Descartes contrasta o método de síntese do de análise.  No primeiro cada passo está contido no anterior: é o usado na geometria, a demonstração é feita segundo longa série de definições, postulados, axiomas e teoremas; ao passo que o método de análise, preferido por Descartes "mostra o verdadeiro caminho pelo qual se descobrem as coisas ". Assim, o método sintetico seria mais adequado à exposição, e o analítico, à descoberta. O analitico é usado nas meditações porque o próprio percurso cartesiano começa por derrubar o edificio das ciência para começar a construir um novo, a partir de sólidos alicerces. Segundo Descartes em "Conversação com Burman" (apud Cottinghan), o método analítico é mais adequado para as explicações metafísicas, para derrubar, por exemplo, todos os preconceitos que o indivíduo acumula desde a infância, ao passo que o método sintético é facilmente aceito e seguido por todos, justamente por seguir os postulados matemáticos

Onofre Veiga

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Método Analítico x Método Sintético
« Reply #2 on: May 29, 2000, 03:56:24 am »
André: Achei nos prolegômenos o trecho mencionado. Está no final da introdução, página A,20,21. Pelo que eu entendi, a definição é correlativa a de Descartes, mas numa forma fácil de se chegar à confusão visto que o que Kant está afirmando é que a Crítica da razão Pura é escrita no método sintético, e o prolegômenos no método analítico. O método sintético usado na crítica, não é exatamente igual ao método geométrico. Kant escreveu a Crítica de uma forma que considera ininteligível para a maior parte das pessoas, e os prolegômenos apresentam a mesma argumentação escrita de forma simplificada. O que ocorre é que para Descartes o método sintético é facilmente aceito por todos, por ser evidente por si só, enquanto para Kant, o método  sintético foi necessário na crítica, afim de que a ciência nova que ele estava propondo pudesse apresentar "todas as suas articulações como a estrutura de uma forma cognoscitiva muito peculiar, na sua ligação natural". Ou seja: Era necessário à Crítica da razão pura que obedecesse ao método sintético, a fim de que todas as suas partes estejam interligadas, e suas articulações estejam tão bem feitas que possam formar um todo. Entretanto, Kant preferiu apresentar os Prolegômenos como uma alternativa aos "futuros professores" que quisessem entender a nova ciência que propunha. O método analítico não precisa garantir esta inteireza, "mas abrangia o todo com a vista, afim de examinar, peça por peça os pontos principais que importam nesta ciência, e de organizar melhor os pormenores do que podia acontecer na primeira redação da obra".

Os pontos de aproximação com Descartes são: o método analítico é mais próprio para a exposição da metafísica, pois o método sintético é próprio para  as definições formais da geometria (ou seja, um todo de postulados, enunciados,definições, etc), enquanto  o método analítico não se presta à exposição, mas à descoberta. No método analítico, mais próximo de uma dissertação, o leitor parte junto com o autor de forma a incorporar suas idéias, visto que, junto com ele, parte do início em direção à descoberta.

Bom, desculpe se está um pouco confuso. O assunto é complicado, mas acho que é isso.

Schwierig

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Método Analítico x Método Sintético
« Reply #3 on: June 04, 2000, 01:11:50 pm »
 Consultando o texto original de Descartes, vemos que nesta passagem (os últimos parágrafos de sua "Réponses aux secondes Objections) ele nota que a "análise mostra o caminho pelo qual uma coisa foi 'méthodiquement inventée'. Resta-nos perguntar: o que é "une chose" e quando pode ela ser metodicamente inventada? uma coisa inventada?  
Descartes está usando conceitos da retórica medival, tratando  sua argumentação como a exposição de um acontecido (_res_ traduzido por coisa), de acordo com as regaras do genus judicale, no qual se deveria inventar (_inventio_: chegar à) sua argumentação, i.e. construi-la paulatina e racionalmente a fim de convencer a sua audiência.  
Imaginemos no caso geral: o orador compreendeu o caso (a coisa) clara e distintamente. Agora (posteriormente) ele deve reorganizar a apresentação dos fatos, não apenas para expôr o desenrolar verídico do acontecimento, como também para convencer seus ouvintes de que o sucedido se deu de tal forma. Mostrar que se está dizendo de que é, que é; e de que não é, que não é. A forma da exposição deve permitir aos ouvintes ver também a verdade do fato, clara e distintamente.  
Porisso ele seguiu a via analítica nas Meditações, pois ela é "la plus propre pour enseigner" mas não dá, por reestruturar os fatos, uma satisfação completa àqueles que desejam saber como que tais proposições foram deduzidas.  
Para isso, ele segue a via sintética e vai por uma longa cadeia de "axiomes, de théorèmes e problèmes", deduzindo as conseqüências das causas, chegando ao resultado pretendido.

Para o leitor moderno pode surgir uma dificuldade para a compreensão do texto  quando ele explica que: "Synthesis e contra per viam oppositam et tanquam a posteriori quaesitam (etsi saepa ipsa probatio sit in hac magis a priori quam in illa)...": a síntese é a posteriori!  
Ele pode afirmar que a síntese é ao contrário um caminho oposto e a posteriori,  pois, ele está usando este termo dentro da acepção que ele tinha na escolástica: indo dos fatos (pela via reversa) às causas. Isto vale tanto para o orador, pois ele terá que proceder assim para deduzir o caso, como também para os ouvintes pois estes, apenas depois de terem sido ouvidos e compreendidos os argumentos, conseguem apreender o sucedido.

Descartes, mas, não se esquece, entre parênteses,  de nos alertar que a prova, a dedução (ipsa probatio) do acontecido é na verdade anterior (magis a priori) que a exposição desse, através da via analítica. Apenas isso.
E isto não me parece ter nada em comum com os julgamentos a priori e a posteriori de Kant. Eu posso estar enganado mas para que concluamos que "Kant nos Prolegômenos, menciona a mesma distinção. Esta obra utilizaria o método analítico, já a Crítica da Razão Pura, o sintético." teríamos de ter indicações mais precisas sobre quais passagens foram usadas para se chegar a tal conclusão sobre o pensamento de Kant. Sem acesso aos textos não há discussão!

Onofre Veiga

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Método Analítico x Método Sintético
« Reply #4 on: June 04, 2000, 04:30:52 pm »
Caro Schweirig:
Creio que o método de exposição analítico de Descartes fica assim bem explicado. Também consultei o texto de Descartes, mas na tradução de Gilles Gaston Granger (que é francês) para português ele achou mais adequado traduzir "uma coisa é metodicamente descoberta) e não inventada. Também na edição citada do dicionário John Cottigam, a tradução do inglês prefere este termo.  
Pouco tenho a acrescentar a tua explanação. Cumpre lembrar que Descartes está tratando especificamente da maneira de demonstrar, pois ele diz "no modo de escrever dos geômetras, distingo duas coisas, a saber, a ordem e a maneira de demonstrar". A ordem consiste que as coisas propostas primeiras devem ser conhecidas sem a ajuda das seguintes, e as seguintes devem ser conhecidas pelas coisas que precedem. Na maneira de demonstrar está a nossa distinção entre o método analítico e o método sintético. As notas de Gérard Lebrun salientam que a "análise ou resolução de Descartes" não se trata da Análise como disciplina grega. Lébrun fala ainda que a análise oferece o risco de tornar o leitor desatento à ordem, e, em Metafísica levá-lo a esquecer que se trata de demonstrações. A diferença entre análise e síntese, é uma diferença na maneira de demonstrar, ou a maneira pela qual a  demonstração se impõe ao espírito do leitor. Lébrun cita dois comentadores que tratam desse assunto, Buillemin e Louis Mayler.

Achei interessante a sua conexão desta maneira de demonstrar de Descartes com um dos três gêneros da retórica, o judiciário. Pois nesse gênero, a persuasão procura convencer através do ensino. Acho que o que você fala é particularmente importante para entender porque o método asnalítico é mais adequado, visto que Descartes apenas afirma ser este o método melhor para descobrir a verdade sem explicar melhor.

Quando você diz que ..."Para isso, ele segue a via sintética " ..., entendo que você deve estar falando da demonstração pela via geométrico-sintética que Descartes empreende logo depois do nosso trecho. Ele fez isso para atender um pedido dos filósofos e teológos nas objeções.

Agora, o real motivo desse tópico é saber se Kant tinha essa noção cartesiana quando a mencionou nos prolegômenos. Digo cartesiana, porque, embora se trate dos geômetras, Descartes diz distingui. como grifei no texto. O trecho de Kant nada tem a ver com os juízos sintéticos a priori ou a posteriori ou o juízo analítico. Aliás, também não entendi seu grifo a dizer que sintético é a posteriori, sendo que isso já está explicíto no próprio conceito de sintético.

O trecho de Kant que trata disso já expliquei, está no prefácio dos prolegómenos a  toda metafísica futura que queria se apresentar como ciência" (Prolegomena zu einer jeden künftigen Metaphysik). É o último  parágrafo da introdução, ou como indiquei, as páginas A20, 21 da edição original de 1783.

Schwierig

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Método Analítico x Método Sintético
« Reply #5 on: June 12, 2000, 06:19:26 pm »
 Retornando à discussão sobre a questão do método em Descartes e Kant, gostaria de, após ter exposto a posição de Descartes, de agora expor a posição de Kant para concluir minha contribuição a essa discussão.

Usando a Kant-Konkordanz descobri que ele trata dessa questão em três diferentes obras, as quais cito segundo a edição da Academia Real de Ciências da Prússia (a qual será abrevida pela sigla AA = Akademieausgabe).
1.Prolegomena zu jeden künftigen Metaphysik, die als Wissenschaft wird auftreten können: AA IV: 263
(a passagem citada por Onofre Veiga: um texto que não apenas a linguagem barroca mas também o estilo prolixo, tão típico, mormente, de Kant, tornam difícil sua leitura e compreensão).
2. Immanuel Kant's Logik: Ein Handbuch zu Vorlesung : AA IX (um compêndio que Kant pediu a Gottlob Benjamin Jäsche escrever e publicar para os estudantes de Lógica, baseando-se em sua exposição e em anotações dos estudantes. Um texto no qual as idéias de Kant são expostas numa linguagem clara, metódica e direta já que era para uso didático).
3. Über eine Entdeckung nach der alle neue Kritik der reinen Vernunf durch eine ältere entbehrlich gemacht werden soll (=Sobre uma descoberta segundo a qual a nova Crítica da Razão Pura torna-se obsoleta devido a uma crítica mais antiga): AA VIII (um pequeno texto onde Kant, como já se pode ver pelo nome, rebate com um "Streitschrift" (hoje diríamos com uma _flame_) as críticas do wolffiano John.Aug.Eberhard contra a sua KrV)

Crendo que "... Jaesche im ganzen die Gedanken Kants unverfälscht mit der erforderlich Klarheit dargestellt hat." como diz o editor da Academia (AA IX: 505), podemos nos basear na clareza e fidelidade da exposição dos pensamentos de Kant por Jäsche e passar a analisar o que foi dito sobre os métodos no cap. II, ressaltando que todas as traduções são de minha inteira responsabilidade.
Nesse capítulo, intitulado barrocamente como "Beförderung der Vollkommenheit des Erkenntnisses durch logische Eintheilung der Begriffe" (Promoção à perfeição do conhecimento através da estruturação lógica dos conceitos)
ele define no §117 o "Analytische oder synthetische Methode" como:
"Die analytische Methode ist der synthetische entgegengesetzt. Jene fängt von dem Bedingten und Begründeten an und geht zu den Principien fort (_a pincipiatis ad principia_), diese hingegen geht von dem Principien zu den folgen oder vom Einfachen zum Zusammengesetzten. Die estere könnte man auch die regressive, so wie die letztere die progressive nennen"
"O método analítico se opõe ao sintético. Aquele começa pelo que é derivado e provado e prossegue até aos princípios (_a principiatis ad principia_), esse, ao contrário, vai dos princípios ao que lhes segue ou do simples ao composto. O primeiro podemos chamar de regressivo assim como o segundo de progressivo".
Bem, o texto é tão claro que dispensa qualquer comentário! Apenas poder-se-ia incluir que enquanto o método analítico se aplica à dedução, o sintético à previsão.

Nesse parágrafo há uma nota de rodapé:
"Anmerkung: Die analytische Methode heißt auch sonst die Methode des Erfindens. Für den Zweck der Popularität ist die analytische,für die Zweck der wissenschaftlichen und systematischen Bearbeitung des Erkenntnisses aber ist die synthetische Mehtode angemessener".
"Nota: O método analítico pode ser chamado também de método de descoberta. Para a popularização (das idéias) é mais recomendável o método analítico, para se trabalhar científica  e metodicamente os conhecimentos, o sintético".
Notem, por favor, a palavra: "Erfinden" (que vem de _er_ (particula a indicar o aspecto perfeito de uma ação) e de _finden_ (descobrir, achar)) ...  
Pois bem: caso alguém não concorde com a tradução e procure essa palavra num dicionário, achará "inventar", o que parece ser correlato à "inventée", que encontramos no texto de Descartes. Mas, e agora vem um grande "mas"....
_inventée_ NÂO tem lá o sentido de inventar mas sim de in-venir (chegar à) e por isso se relaciona ao contexto de exposição e não ao contexto de descoberta, como expliquei.  
Voltando ao texto e notando-se que Kant está se referindo ininterruptamente ao contexto de descoberta, vê-se que qui está se dizendo que o método analítico é usado para se descobrir (eu diria deduzir) um fato e encontra assim sua aplicação na popularização do conhecimento pois torna as deduções mais compreensíveis.

À essa conclusão ele pode chegar pois em toda esta argumentação há uma idéia implícita, há um argumento ex-silentio: que os princípios são poucos e simples enquanto as suas conseqüências, múltiplas e complexas. Levando isso em conta pode-se entender que sempre é mais fácil ir-se das conseqüências às causas pois assim reduzem-se a cada passo, paulatinamente, os caminhos possíveis. Partido dos princípios para chegar-se às conseqüências (o que seria o método sintético) ter-se-ia que explicar porque essa causa gerou tal conseqüência e não uma outra qualquer, o que tornaria a compreensão da dedução extremamente laboriosa mas mas que é imprescindível e necessário ao tratar-se de uma exposição científica. Por isso o método sintético é o mais adequado a essa tarefa.

Mas leiamos o parágrafo seguinte:  
§118 "Syllogistische - Tabellarische Methode" - antes de chegarmos a uma conclusão quanto à comparação entre o que Descartes e Kant entendem por método analítico e sintético.
"Die syllogistische Methode ist diejenige, nach welcher in einer Kette von Schlüssen eine Wissenschaft vorgetragen wird.
Tabellarisch heißt diejenige Methode, nach welcher ein schon fertiges Lehrgebäude in seinem ganzen Zusammenhange dargestellt wird"
"O método silogístico é aquele segundo o qual uma ciência é exposta através de uma cadeia de deduções. Tabelar chama-se aquele método pelo qual um ramo do conhecimento, quando completamente pesquisado, é exposto em todos as suas relações."  
Outra passagem de clareza exemplar. Apenas resta-me ressaltar que agora, e finalmente agora, Kant está se referindo ao contexto de exposição.  

Agora sim podemos comparar os textos de Descartes e de Kant e tirar as nossas conclusões:

No contexto de descoberta, Descartes se refere ao método sintético enquanto aqui Kant fala do analítico e do sintético. Comparemos ambas as posições: Considerando que Descartes, em suas Meditações, parte do composto: de seu corpo, da câmara onde se encontra, do papel e da cera em sua frente, de todos estes topoi que nos são tão conhecidos para  a partir deles deduzir a existência da alma e de Deus: i.e. os princípios, podemos dizer que Descartes está usando aqui o método analítico de Kant (naquele pelo qual se segue do complexo ao simples) e chamando-o de método sintético .
No contexto de exposição, Descartes se refere ao método analítico enquanto aqui Kant fala do silogístico e do tabelar. Como Descartes nos expõe as suas deduções de um ramo de conhecimento, após tê-lo completamente pesquisado, esclarecendo todas as suas implicações, ele usa o método que Kant chama de tabelar.

Creio com isso ter respondido a questão plenamente de forma que basta-me agradecer ao fórum essa dica para mais uma aula e devolver aqueles vetustos livros à biblioteca do Instituto.

Onofre Veiga

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Método Analítico x Método Sintético
« Reply #6 on: June 14, 2000, 02:21:52 am »
 Prezado Schwierig:
Realmente sua intervenção trouxe dados valiosos para a discussão, principalmente através da localização dos textos. Só gostaria de fazer uma complementação e uma ressalva.

O método de exposição sintético foi necessário na redação da Crítica da Razão Pura, justamente por expor de uma forma mais científica a Crítica. Esta, uma ciência orgânica, em que o todo depende de cada uma de suas partes, e em que cada membro existe em funções de todos os demais, foi mais bem apresentada conforme a estrutura da crítica, em seus capítulos e partes, definições e exposição progressiva. Mas o próprio Kant reconhece, já no prefácio da segunda edição, que seu livro foi mal compreendido. Não porque estivesse ele errado, pois Kant muito pensou antes de publicar sua obra magna, mas sim por causa deste método de exposição. A segunda edição, revisada pelo autor, já traz diferenças no método de exposição, feitas para facilitar a compreensão, e suprimindo algumas coisas para o livro não se tornar demasiado volumoso. Diz Kant: "Já na exposição resta muito ainda a fazer, e neste sentido tentei melhorias para remediar em parte o mal entendido da Estética, sobretudo o contido no conceito de tempo, em parte a obscuridade na dedução dos conceitos do entendimento em parte a suposta falta de uma evidência suficiente nas provas dos princípios do entendimento puro, a em parte finalmente a falsa interpretação dos paralogismos antepostos à psicologia racional. As minhas modificações no modo de explicação estendem-se até aqui (a saber, somente até o fim do primeiro capítulo da dialética transcendental) e não mais adiante, pois me faltou tempo e porque, com referência ao restante, não me deparei com nenhum mal entendido"
Este trecho ilustra bem a preocupação de Kant em tornar a crítica mais intelígivel, usando para isso uma mudança no método de exposição. Tal mudança viria a se concretizar no seu livro posterior, os "Prolegômenos", que discutíamos. Este livro é considerado uma simplificação da Crítica. Devemos lembrar a grande dificuldade dos intelectuais da época diante ao monumento kantiano, e daquele seu amigo que lhe devolveu o livro pela metade julgando que ficaria louco se chegasse ao fim. Isto me lembra também a história de David Hume, que escreveu o Tratado Sobre a natureza Humana já contendo todos os principais elementos de seu pensamento. Porém, devido à má compreensã de seu tratado, fez publicar anonimamente um "resumo do trado da natureza humana" e a "Invenstigação acerca do entendimento humano", que pega uma dar partes do tratado e a explica de um modo mais compreensível.

Quanto ao final de sua mensagem, creio que o senhor se equivocou. Devido às passagens de Kant brilhantemente expostas, traduzidas e interpretadas pelo senhor, só temos a nos alegrar com a aproximação com Descartes, pois tanto em Descartes quanto em Kant, o método analítico é propício à descoberta e o sintético à exposição, e não o contrário. Isso já expus suficientemente, além do dicionário Descartes, se encontra tal teor nas própias respostas às Segundas Objeções.

Onofre Veiga

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Método Analítico x Método Sintético
« Reply #7 on: June 14, 2000, 03:25:05 am »
Creio que há ainda duas dificuldades. A citação do $117 do Schwierig, diz que o método analítico parte do composto para os princípios, e o sintético faz o contrário. Porém, Descartes afirma que em ambos os métodos as coisas que vem primeiro devem ser conhecidas sem a ajuda das coisas seguintes. Esta é a ordem de demonstrar dos geômetras, comum aos dois métodos de exposições. Diz Descartes que procurou seguir esta ordem o tanto quanto pode em suas meditações, que usam o método da descoberta (analítico).

A outra dificuldade, é saber se o método sintético em Kant pode ser formalmente chamado de geométrico. Descartes afirma que os geômetras conheciam os dois métodos, mas usavam somente o sintético por julgar o analítico tão superior que deveriam guardá-lo só para si. O método sintético se serve de uma longa cadeia de definições, axiomas e postulados, teoremas e problemas. Ou seja, podemos dizer que os Elementos de Euclides usam o método geométrico-sintético. Seria justo dizer que Kant usa esta mesma forma de exposição na Crítica? A Crítica não está exposta segundo esta maneira formal do método sintético-geométrico (como a Ética de Espinosa), porém, penso que Kant tinha exatamente esta maneira formal quando escreveu a Crítica. Devemos nos lembrar da importância dada por Kant à geometria. Kant procurava, no campo inseguro de batalha que era a metafísica, encontrar um terreno seguro sobre o qual pudesse se edificar algo. Para isso ela deveria seguir o exmplo dos geômetras e da ciência da natureza. A chave da revolução copernicana empreendida por Kant é encontrada na geometria, quando o primeiro indivíduo "(tenha se chamado Tales ou como se queira) acendeu uma luz, pois achou que não tinha que rastrear o que via na figura ou o simples conceito da mesma e como que apreender disto suas propriedades, mas tinha de produzir (por construção) o que segundo conceitos ele mesmo introduziu a pensando e se apresentou a priori e que, para saber de modo seguro  algo a priori, não precisava acrescentar nada à coisa a não ser aquilo o que ressaltava necesariamente daquilo que ele mesmo havia posto nela conforme seu conceito".  
Este momento essencial para o progresso que Kant enxergou encontra paralelos em Leibnitz e com as relações de idéias e questões de fato de Hume.

Mais adiante, sobre esta relação com os geômetras, Kant afirma que:  " O assunto dessa critica da razão pura especulativa consiste naquela tentativa de transformar o procedimento tradicional da Metafísica e promover através disso uma completa revolução na mesma, seguindo o exemplo dos geômetras e dos investigadores da natureza. É um tratado sobre o método e não um sistema da ciência mesma, não obstante traça todos os seus contornos, tendo em vista tanto os seus limites quanto sua estrutura interna."

Silvana Penteado

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Método Analítico x Método Sintético
« Reply #8 on: March 20, 2003, 08:06:48 pm »
Boa noite.

Sr. Schwierig ou Onofre,

Poderiam escrever sobre o conceito de método analítico?

Obrigada
Silvana


Cami Caze

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Método Analítico x Método Sintético
« Reply #9 on: November 22, 2004, 03:28:49 pm »
Uma boa discussão sobre o método de análise e de como Descartes o utiliza está em BATTISTI, César Augusto. O método de análise em Descartes: da resolução de problemas à constituição do sistema do conhecimento. Cascavel: Edunioeste, 2002.  
Para Kant, tem o texto do LOPARIC. The methods of analysis in Kant's speculative philosophy. Campinas: Unicamp, 1982. Tese de livre docência.

Offline lasoirnoir

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Re: Método Analítico x Método Sintético
« Reply #10 on: February 18, 2009, 10:21:39 am »
Pessoal, acredito que esta distinção entre método sintético e analítico se refere principalmente ao modo como determinadas ciências - física e matemática - legitimam a evidência do conhecimento postulado por cada uma. A matemática chega aos seus conceitos sinteticamente , lançando mão de definições em que os conceitos determinam por inteiro seu objeto, a tal ponto que aquilo de que se fala está compreendido no conceito, nunca fora dele. Segundo Kant , em resposta à questão da academia real de ciências de Berlim, " a matemática chega a seus conceitos sinteticamente e pode dizer seguramente : o que não quis representar em seu objeto pela definição, tampouco está contido no objeto - Kant, escritos pré-críticos - II 291, p.126).

Offline Brasil

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Re: Método Analítico x Método Sintético
« Reply #11 on: February 18, 2009, 01:00:38 pm »
Olá, lasoirnoir, bem-vindo ao fórum!

Achei muito interessante isso que você colocou... E já vi que gostas da filosofia de Kant.
Não deixe de continuar a expor os teus pensamentos neste fórum, Ok?

Abraço
« Last Edit: February 18, 2009, 02:39:16 pm by Brasil »

Offline lasoirnoir

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Re: Método Analítico x Método Sintético
« Reply #12 on: February 18, 2009, 03:27:23 pm »
Olá, lasoirnoir, bem-vindo ao fórum!

Achei muito interessante isso que você colocou... E já vi que gostas da filosofia de Kant.
Não deixe de continuar a expor os teus pensamentos neste fórum, Ok?

Abraço

Será sempre com uma grande vontade que participarei deste forúm! abraços
« Last Edit: February 18, 2009, 04:46:16 pm by Brasil »

Offline cesarbattisti

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Re: Método Analítico x Método Sintético
« Reply #13 on: June 24, 2009, 09:33:56 pm »

Aos interessados sobre método de análise e de síntese,

Escrevi uma tese sobre o tema, em Descartes, também editada em livro, cujo título é : O método de análise em Descartes: da resolução de problemas ao sistema de conhecimento.
Quem quiser que eu envie a tese, favor me escrever: [email protected]
César Augusto Battisti